"A luz na pintura de Palhano é tão vital quanto a fotossíntese no crescimento das plantas, daí por que se distancia de qualquer concepção acadêmica de mera iluminação do cenário. Essa luz invisível preexiste na tela, é embutida no seu cerne, como uma candeia fechada."
Francisco Brennand

sexta-feira, 16 de março de 2018

Gauguin, o esplendor de uma obra



Paul Gauguin foi marinheiro por seis anos. Dos 17 aos 23, esteve no convívio com o horizonte imenso dos oceanos, até 1871, e, também, como Édouard Manet anos antes, desembarcou no Rio de Janeiro. Período de experiências difíceis: primeiro como estudante para oficial na marinha mercante e, depois, cumprindo deveres militares como marinheiro de terceira classe, enfrentando os seus colegas rudes, que o mantinham a distância. Apesar de ser de estatura de 1,63 m, possuía uma compleição forte e sentia-se respeitado pela coragem no enfrentamento físico. Durante essas viagens marítimas, realizava desenhos para se desconcentrar do ambiente e tentar se afastar dos colegas de convés. Os mares não o faziam sonhar com o seu futuro como artista, coisa inimaginável para o jovem marinheiro. Era um diamante bruto, um gênio em estado latente.

Em seguida, por iniciativa de Gustave Arosa — homem rico que conseguiu sucesso no âmbito da bolsa de valores de Paris e pessoa da relação de sua mãe, Aline Gauguin, que o escolheu como o tutor de Paul —, Gauguin entra no ramo dos negócios financeiros e consegue uma estabilidade burguesa, casando-se com Mette-Sophie Gad, que, durante algum tempo, não suspeitava que estivesse casada com um futuro artista que seria de grande importância para a história da arte. Mas, no próprio trabalho como agente financeiro, encontrou um amigo aficionado em artes plásticas, Claude Émile Schuffenecker, que o fez se aproximar dos museus, dos artistas, das coisas que fizeram Gauguin caminhar ao encontro do mundo da arte. No início, era aos domingos que encontrava tempo para a pintura. Um período sem grandes preocupações para Mette, pois a vida de estabilidade financeira a fazia respirar tranquilidade, enquanto Paul não se definia numa dedicação integral à arte, que consolidaria a separação de um casamento conflituoso.

As primeiras obras de Paul Gauguin foram influenciadas por pintores da escola Barbizon, como Corot, Théodore Rousseau, Millet, Daubigny, que representavam uma pintura escura, na captação direta da paisagem, e depois complementada com as pinceladas de cada artista nos ateliês.

Arosa já possuía, em sua mansão, obras de artistas da nova pintura, que foi considerada como a da sensação, da impressão. Com o título de uma pintura de Monet, “Impressões do sol poente”, um crítico cunhou o nome “Impressionismo”, que, como se sabe, vingou. O seu protetor era um dos investidores da nova pintura; possuía quadros de Pissarro, de Jongkind e outros. Foi ali que Gauguin começou investir mais em suas pinturas, bebendo das novidades que encontrava em Paris. Pissarro — o mestre passageiro — foi quem o introduziu realmente na pintura de pesquisa, de concepção; não se fixou na maneira impressionista de representação, a técnica da sensação foi apenas um aprendizado que logo passaria para outras experiências. Não era mais um diletante, e sim um desbravador que alcançaria o mais alto grau na criação.

Em sua trajetória, Gauguin apreciava trabalhar com outras culturas ou pelo menos com as que considerasse longe dos movimentos civilizatórios; ou estranhas de alguma forma para penetrar nas cores que mostrassem o lado primitivo das coisas. Nesse ponto, o artista encontrou seu mundo e dele era o mestre, acompanhado por seguidores encantados pelo seu discurso. Uma personalidade com ideias que influenciou muitos, inclusive artistas como Vincent Van Gogh; em contrapartida, o holandês deixou as marcas dos seus girassóis na pintura de Gauguin, na convivência dramática que tiveram em Arles, no sul da França, por volta de 1888.

Após as experiências na Martinica, na Bretanha, o artista encontrou, nas ilhas longínquas da Polinésia Francesa, a visão do Criador, que foi despertada com lutas intermináveis e as incompreensões que vinham de um mundo civilizado; dizia em Paris, antes de partir, que, entre “os selvagens daqui e os de lá”, preferia os que estavam no Taiti ou nas Marquesas. Libertou a história da sua própria pintura e, consequentemente, a arte universal, ampliando-a a cada passo num processo crescente de beleza, de luz, de cor, de forma, de conceitos — um encontro feliz com o que ele chamava de “mitologia maori”, que recriou com seu olhar agudo. Foi lá onde realizou suas obras-primas, amou suas “noivas” meninas — Teha’amana e Pau’ura — e viveu dolorosamente em luminosidade tropical. O Cubismo, o Fauvismo, o Expressionismo e toda a geração posterior devem à nascente Gauguin, como numa trindade com Paul Cézanne e Van Gogh, que foram os motores a influenciar o modernismo na arte do século XX.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Cézanne e Émile Zola




Duas vidas, dois criadores que se cruzaram no século XIX, principalmente na juventude. Paul Cézanne, um burguês, filho do banqueiro Louis-Auguste, antigo chapeleiro bem-sucedido que terminou investindo no mundo das finanças e se tornou um dos homens mais ricos de Aix-en-Provence; Émile Zola, órfão de pai, nascido em Paris, pobre, mantinha-se nos estudos graças aos sacrifícios de sua mãe e dos avós. Os dois se encontraram no Colégio Bourbon: Cézanne um ano mais velho; eram considerados estudantes dotados, mas isolados, porque os outros colegas zombavam de Zola pelo sotaque e pela natural diferença de classe social, que, numa ocasião, fez Paul defendê-lo em uma briga, quando levou uma sova dos colegas. A partir daí surgiu uma grande amizade. Discutiam os poetas, e acima de tudo reinava Victor Hugo.
 
Louis-Auguste, como era de origem operária, sonhava para o filho uma carreira na magistratura, para dar suporte à ideia de que superou o preconceito dos cidadãos de Aix-en-Provence, que não admitiam o velho banqueiro como um membro da elite. E dizia: “Filho, filho, pensa no futuro. Com o gênio morre-se, com o dinheiro come-se”. Nessa época, Cézanne já ensaiava as investidas na arte. Mesmo assim, entra no curso de Direito, mas, para a decepção do pai, abandona o curso após os estudos do primeiro ano. Louis-Auguste ainda tenta colocá-lo no banco para ver se Paul herdou algum talento para os negócios. Outro fracasso, porque o jovem pintor queria mais. O artista fez alguns cursos de desenho em Aix-en-Provence que, para ele, não foram suficientes. Paris era o destino. 
 
Desde então, o mundo dos dois amigos começa a se separar. Zola, com os anos, torna-se um dos grandes jornalistas e escritores franceses, um defensor implacável da nova pintura, que iria ser batizada como Impressionismo. Cézanne desdenhava o sucesso do amigo, acreditava que ele tinha se aburguesado, seguindo o caminho inverso dele. Zola criticava Cézanne por ser tão devagar — era negado no Salão Oficial de Paris, mas, por interferência, foi admitido, um ano, por ter sido aluno de um pintor influente — e o interpretava como um artista fracassado. Num de seus romances, “A Obra” (1886), que é o drama da criação, narra o seu tempo e a história de um pintor, Claude Lantier, que se enforca ante uma pintura inacabada por não se sentir capaz de continuar a sua obra. Cézanne se sente atingido por essa publicação e rompe, definitivamente, a amizade com um bilhete sucinto. Para alguns estudiosos, Cézanne foi mais clarividente sobre a obra do escritor, e a visão de Zola sobre o pintor foi equivocada. O pintor foi como um demiurgo para a pintura e o mundo moderno que viria se anunciar no século XX, o que não aconteceu com o escritor.
 
 Cézanne não teve mestre — só nos museus aprofundava suas pesquisas —, foi de si próprio que implantou uma nova visão da pintura que, com sua influência, alcançou até a arquitetura, o design e outras formas de linguagem visual; talvez, sem o poder criador do artista, a modernidade nas artes plásticas não fosse consolidada como foi. Uma caminhada árdua a sua, passou da fase de um expressionismo barroco, com bastantes pastas de tinta, para uma intermediária, seguindo uma natural sequência de refinamentos estéticos, rompendo o tradicional olhar da perspectiva com uma multifacetada interpretação das coisas. Tornou tudo sólido, numa geometria criativa e inovadora. O Cubismo foi um dos seus herdeiros, com as genialidades de Picasso, Georges Braque e muitos outros artistas, inclusive Marcel Duchamp.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A rivalidade criativa

 
Sebastian Smee — crítico de arte premiado com o “Pulitzer” de Crítica em 2011, nascido na Austrália — colaborou com periódicos americanos, é um estudioso da obra de Lucian Freud e ajudou a publicar cinco livros sobre esse pintor britânico. No livro “A arte da rivalidade”, fala da amizade de oito artistas que conviveram e intercambiaram suas produções e, com essa troca, cresceram cada um em seu percurso. São eles Manet, Degas, Matisse, Picasso, Pollock, De Kooning, Freud e Bacon. Smee revela uma rivalidade quase sempre sutil e descarada em algumas situações. Uma realidade natural entre talentos que pretendiam e ganharam o mundo da arte, da crítica, do mercado, da popularidade. Todos amaram o sucesso e se perderam em algumas ocasiões. A fase de não aceitação de suas obras e a pobreza, todos a ultrapassaram.
 
Matisse e Picasso foram dois artistas que se encontraram logo no início do século XX e compartilhavam uma disputa acirrada. O primeiro, doze anos mais velho, sentia-se um mestre, e o era. Nessa posição confortável, tentava arrastar o mais jovem para o seu terreno estético, mas logo viu que se tratava de um gênio indomável e começou a perceber também um adversário no campo da arte. Por exemplo, dos dois, quem primeiro percebeu a força da arte africana, em loja que vendia produtos daquela cultura, foi Matisse, e apresentou a Picasso as máscaras, as esculturas, com as quais o artista espanhol ficou encantado. Picasso percebeu o avanço do pintor francês com a sua visão fauvista, de cores fortes e pinceladas arrebatadoras que todos os outros pintores imitavam ou com a qual se afinavam, enquanto o andaluz caminhava na fase rosa. Matisse era publicado em revista importante, a “Gil Blas”, com a crítica apontando-o como um líder da nova geração de artistas. No mesmo período, ele participou com a obra “A alegria de viver” no “Salão dos Independentes”, que era a opção importante para aqueles que não estavam no caminho oficial da arte. 
 
“A alegria de viver” deu uma sacudida em Picasso, porque ele notou algo de novo ali, pela leveza do tema, as linhas que percorriam os nus representados, a ambiência paradisíaca, as cores vibrantes e uniformes de uma beleza e simbolismo estonteantes.
 
Quando Picasso percebeu a força das máscaras e esculturas africanas, começou a trabalhar em outra linha; aquelas cabeças, corpos, máscaras tinham um novo significado e abririam outras portas em sua trajetória. Pretendia trabalhar em uma obra que tivesse mais força e iniciou a grande pintura “As meninas de Avignon” (“Les mademoiselles d’Avignon”), surpreendendo a muitos (inclusive a Matisse) que não aceitaram o rompimento com a história estética da arte que a obra representava: o espaço, as cores, as formas anatômicas. Foi um ataque à velha e tradicional pintura da perspectiva linear. É como se mostrasse outra concepção do mundo e do espaço. Foi o primeiro passo para o Cubismo. Os dois artistas sempre tiveram, nessa caminhada paralela, uma rivalidade produtiva e uma admiração mútua. As visitas entre eles foram mantidas até a morte de Matisse.
 
Todos os outros artistas mantiveram essa relação de compartilhamento de ideias e de buscas. Manet e Degas, duas visões que se harmonizaram. Manet admirava em Delacroix a cor e as pinceladas visíveis; Degas assimilou o desenho de Ingres, era o seu herói.
 
Pollock e De Kooning, artistas poloneses que buscaram Nova York para suas conquistas, são expressionistas. De Kooning, figurativo; e Pollock mergulhou num Expressionismo Abstrato que alcançou uma radicalização com as suas “drip paintings” (“pinturas gotejadas”), sendo considerado, à época, o maior artista representante da arte contemporânea americana.
 
Finalmente, Lucian Freud e Francis Bacon, artistas britânicos que conviveram desde a juventude, acompanharam mutuamente as suas produções de forte impacto e interagiam em muitas temáticas. Bacon, inclusive, foi retratado por Freud, no desenho e na pintura. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Juana Inés de la Cruz, uma feminista das Américas


Juana de Asbaje y Ramírez de Santillana (1651–1695) — que adotou o nome de Juana Inés de la       Cruz como freira, primeiro no Convento das Carmelitas Descalças e, depois, na Ordem de São Jerônimo, na Nova Espanha, ou México colonial, considerada uma das maiores escritoras, poetas e dramaturgas do Século de Ouro espanhol — é a protagonista da bela série “Juana Inés”, apresentada pela Netflix, que adquiriu os direitos dessa produção realizada pelo canal mexicano Once.

Nas Carmelitas Descalças, Juana Inés não suportou o excesso de rigor que lhe foi imposto, até por motivos invejosos de uma superiora que a impedia de ter acesso a livros e à escrita, obrigando-a a serviços de limpeza infindáveis para que ela soubesse que ali o conhecimento profano não tinha nenhum valor. Não adaptada a esses métodos, conseguiu escapar do convento sob a reprovação do seu  confessor, o padre jesuíta Antonio Núñez de Miranda — docente de teologia, reitor da escola de São Pedro e São Paulo, assessor do Santo Ofício e também confessor dos vice-reis —, que exercia sobre a jovem freira uma ascendência intransigente e perseguição fanática sobre sua obra poética, para não ser publicada, mas reconhecia-lhe o gênio e a grande influência que exercia na Nova Espanha, ante os vice-reis e na corte de Madri. Esse mesmo confessor que a colocou nas Carmelitas tratou de introduzi-la na Ordem de São Jerônimo, a pedido de Juana Inés, em 1669, e pagou os custos da cerimônia, conseguindo também que o dote fosse custeado pelo ministro Pedro Velázquez de la Cadena. A então ilustre monja poeta, com 17 anos, encontrou certo apaziguamento nos Jerônimos, porque pôde ter uma biblioteca com obras de sua seleção — 1.500 livros, segundo o poeta Octavio Paz, autor da obra “Sóror Juana Inés de la Cruz, ou As armadilhas da fé” —, alguns instrumentos musicais levados na bagagem, uma luneta astronômica e a possibilidade de escrever.

Em seu tempo, era vedado às mulheres frequentar a universidade, fato que a incomodou porque era seu maior sonho: saciar a sede do saber. Dizia-se que quando criança, entre 6 a 7 anos, pedia a sua mãe para vesti-la de homem com o fim de entrar na universidade. Lia aos 3 anos e escrevia poemas aos 8, um deles premiado em concurso. Restou a Juana Inés entrar para o convento com o fim de estudar e desenvolver as suas potencialidades em paz. Não possuía afinidades com a religião, como dizem alguns biógrafos; seu desejo profundo era concretizar a obra que se expandiu pelo mundo.

Aos 13 anos, apresentou-se à corte, convidada pelo vice-rei Conde de Mancera. Com sua beleza física, os imensos talentos, uma personalidade forte e atraente pela sua polidez, conseguiu a simpatia e a admiração de todos, principalmente da vice-rainha Leonor Carreto, Marquesa de Mancera, que tornou Juana pessoa de sua intimidade, chamando-a de Juanita. Com 16 anos foi convidada pela marquesa para ser tutora de sua filha, Maria, um cargo de importância na corte. O vice-rei não consentiu de imediato, convocou uma audiência com o confessor Antonio Núñez de Miranda, a vice-rainha e Juana Inés, para tomar uma decisão mais austera com a finalidade de aprovar essa tutora para a filha e sugeriu que a pretendente fosse submetida a uma prova de competência com quarenta homens considerados sábios na cidade do México, inclusive com a presença do próprio assessor do Santo Ofício. Juana Inés foi aprovada com louvor ante o tribunal de avaliação e ainda ironizou alguns questionamentos acerca de livros proibidos pela Inquisição.

Já adulta, com uma obra consolidada, o prestígio como uma intelectual que correspondia com a nata do mundo hispânico do século XVII, inclusive com o próprio Papa, tornou-se motivo de inveja por muitos prelados que não admitiam que uma mulher escrevesse e muito menos fosse famosa por isso. Com a sua força, desafiou o universo masculino da época, defendendo a igualdade de gênero ante o direito de pensar e de se expressar na escrita. A vice-rainha Marquesa de Laguna, Maria Luiza, a segunda que a protegeu, a fez se libertar do confessor Atonio Núñez de Miranda e conseguiu, na corte espanhola, publicar a sua obra poética completa. Por causa do ímpeto de liberdade no conteúdo dos seus escritos, foi perseguida pelos inimigos, autoridades da Igreja, que lhe tiraram a biblioteca e a liberdade, mas não a impediram de publicar a obra, que era o desejo daqueles inquisidores. Hoje, também é reconhecida como a primeira feminista das Américas...

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O olhar indomável

                                                                        Ciência e caridade

Quando Pablo veio ao mundo, em 25 de outubro de 1881, em Málaga, as pessoas que o recepcionaram foram: três mulheres — sua avó, duas tias solteiras, irmãs de sua mãe, todas da família Picasso —, e o pai, Dom José Ruiz Blasco. O primeiro filho, que iria se juntar às irmãs Lola e, depois, Concepción. O universo da criança era enlaçado pelo ser feminino, temática que o perseguiu durante todo o seu percurso como artista. Logo cedo, demonstrou um interesse vulcânico pelo desenho. Em sua alfabetização, o próprio Picasso exigiu que o deixassem desenhar na escola.

Pablo só poderia entender o mundo através dos desenhos, dos quais ficaram os mais representativos para contar a história da infância do artista. Desenhos de pombos, captados ao natural: em pousos, indicando as asas nervosas no esforço de seus movimentos; touradas com todo o cenário: de touros, toureiros e a presença de um público em linhas hábeis; depois, vieram os desenhos dos familiares: a mãe, Dona Maria Picasso y López, o pai, as irmãs e outros, num traço preciso e espontâneo, de uma magia pouco encontrada em crianças vocacionadas para as artes visuais. O pai, impressionado com a verve do filho, sendo ele próprio professor de desenho na Escola de Belas-Artes, restaurador de quadros e conservador do museu municipal, cuidou da educação do jovem pré-adolescente para desenvolver seus talentos e influenciá-lo a ser um artista dentro dos padrões acadêmicos, que Pablo não aceitou com passividade: só estudou até esgotar os conhecimentos e os abandonou para iniciar o trajeto de criações múltiplas e intensivas da obra que realizou. Assinou-as primeiro com o nome Pablo Ruiz Picasso; em seguida, P. R. Picasso, reduzindo o nome do pai; quando adquiriu confiança, P. Ruiz; e, finalmente, com a sua personalidade criativa concretizada, assumiu definitivamente o nome Picasso.

Inicia os seus estudos acadêmicos no desenho, em La Coruña, com 11 anos de idade. Meio século mais tarde, acompanhado de uma de suas biógrafas, Antonina Valentin, visita uma exposição sobre desenhos infantis; então Picasso diz a ela que não poderia participar, à época, como criança, de mostras semelhantes, porque “já desenhava como Rafael”. Aos 13, seu pai lhe entrega todo o material de pintura e, a partir daí, deixa de pintar, talvez ofuscado pela genialidade do filho, segundo a hipótese de alguns estudiosos.
 
As primeiras obras-primas, em pinturas a óleo, realizadas com 15 anos, foram “Primeira Comunhão” e “Ciência e Caridade”. A “Primeira Comunhão”, pintura na qual os modelos principais são o pai e a irmã Lola, é uma cena de cerimônia de introdução aos dogmas católicos, considerada um exemplar de execução dentro dos parâmetros acadêmicos, indo muito além na concepção para a idade do autor. E “Ciência e Caridade”, obra que representa assistência a uma enferma, cuja modelo é sua mãe; o médico, o pai; e a irmã, uma enfermeira religiosa, segurando uma garotinha, que é a irmã mais nova, Concepción. Essa pintura recebeu uma menção honrosa na Exposição Nacional de Belas-Artes de 1897 e uma medalha de ouro em Málaga.

O olhar indomável de Picasso o fez caminhar na arte ao encontro de Paris (1900), onde ele descobriu uma infinidade de outras possibilidades de expressão; bebeu de quase todos os principais movimentos e artistas que viveram aquele momento, partindo do impressionismo, do pós-impressionismo, dos fauvistas... O jovem artista, com 20 anos, começou a vislumbrar um novo mundo, impossível de conhecer se ficasse na Espanha, reduzido aos estudos acadêmicos. Tornou-se um sol e expandiu a sua obra pela Europa e por outros continentes. Em todos os principais artistas visuais do mundo do século XX, há algo de Picasso...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A explosão plástica do inconsciente

                                                                         Fernando Diniz
  
Na década de 1970, tive contato com as obras plásticas dos pacientes do Centro Psiquiátrico Pedro II, do Rio de Janeiro, conhecidos como os Artistas de Engenho de Dentro. Naquela época, vi muitas delas em exposições. Desde então, passei a acompanhar tudo que era publicado em vídeos, revistas e livros sobre o assunto. Esses pacientes encontraram nos métodos da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) — influenciados pelas teorias de Jung — uma forma de se integrar à arte na seção de psicoterapia ocupacional do hospital, dirigida por ela como um laboratório da psique. Essa aproximação com a arte foi um sólido apoio para amenizar os seus sofrimentos provocados pelos transtornos mentais e uma saída para expressar o seu mundo inconsciente atormentado, mas rico de explosões de imagens, que foi estudado minuciosamente pela psiquiatra, que tem uma história naquele hospital, na psiquiatria do País e, principalmente, junto aos pacientes com esquizofrenia, que se tornaram artistas marcantes. 

Quando Nise da Silveira teve o seu primeiro contato, em 1944, com o Centro Psiquiátrico, questionava o uso de tratamentos como eletroconvulsoterapia (eletrochoque) e lobotomia, entrando em confronto com os colegas do hospital. Para alguns deles, a lobotomia era o ápice da ciência médica, método utilizado também por Estados totalitários no século passado para encerrar a vida psíquica e emocional de seus inimigos. Houve verdadeira luta até se decidir que Nise assumiria a Seção de Terapia Ocupacional (abandonada, sem nenhuma função no Centro), em 1946, com a anuência da direção, talvez para se livrar do incômodo daquela médica para o hospital e seus colegas. Ela permaneceu dirigindo esse setor até 1974. 
   
A psiquiatra convocou poucos enfermeiros e funcionários do hospital para auxiliá-la nos trabalhos de psicoterapia. Pediu aos colaboradores que mantivessem o maior respeito possível aos pacientes e os deixassem livres. Só observassem e anotassem o que eles diziam ou suas ações. Foi instalado, então, o Ateliê de Pintura, que era o desejo da psiquiatra, com a assessoria de um funcionário artista que se tornaria importante, Mavignier. Ele reunia os materiais para os pacientes e ensinava como utilizá-los, sem interferências na criação. Tornou-se, a Seção, aos poucos, um sucesso no hospital, porque os pacientes vinham lentamente e começavam a descobrir que poderiam realizar coisas que não estavam previstas nas suas vidas. Era uma novidade que foi atraindo o entusiasmo de muitos dos que se interessavam pelo Ateliê. 

À medida que as pinturas e outras linguagens plásticas eram realizadas, Nise da Silveira registrava tudo em fotografia, para entender o universo daqueles artistas e procurar avaliar cada um deles no seu percurso histórico pessoal. Numa das remessas dessas fotos a Jung, o psiquiatra ficou admirado e a aconselhou que se aprofundasse no estudo da mitologia de todas as culturas e religiões possíveis para acompanhar o que o inconsciente revelava naqueles artistas/pacientes. A experiência foi magnífica. A Dra. Nise encontrou muitas revelações que foram consignadas em suas obras, principalmente, no livro “Imagens do inconsciente”. Mario Pedrosa, um dos nossos maiores críticos de arte, foi um entusiasta não só do trabalho da psiquiatra como dos artistas que consolidaram suas obras no Ateliê, que se expandiram em mostras nas instituições culturais, nos museus, na imprensa nacional e internacional.    

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O desassossego da luz





Conta a lenda que um imenso cardume vivia num lago, onde a água era turva, com algas escuras, de uma aparente abundância, porque o alimento era adquirido sem esforço. Cada indivíduo daquela espécie não tinha nenhuma inquietação, estava saciado e lento em seus movimentos. Aos mais jovens era ensinado que não deveriam sair dali, pois uma corrente próxima desembocava num oceano misterioso e cheio de perigo. Mas um peixe curioso tentou quebrar a tradição. Aventurou-se a pular, com grande coragem, para alcançar as águas desconhecidas. Quando mergulhou na nova corrente de águas luminosas, sua visão foi renovada. Percebeu alimentos saborosos, outras plantas aquáticas e seres de uma beleza nunca vista. Esse audacioso peixe foi considerado um desertor, um subversivo da ordem de não atravessar os limites determinados. Talvez represente o artista, aquele que ultrapassa as aparências e ousa mergulhar para ver os múltiplos aspectos da vida.

Foi assim, com esse espírito, que escrevi sobre a arte, os artistas do meu convívio e os já consagrados pela História. Ao observar a teia que envolve essas personalidades, notei que possuem concepções diferenciadas e que concretizam significados permanentes. Constatei, com isso, que é necessário o artista dizer algo sobre os seus pares, a história da arte e os vários enigmas que a envolvem. Uma colaboração à sociedade, obedecendo a um impulso interior. É o que tento fazer com artigos que, há vários anos, venho publicando no Diario de Pernambuco, no Jornal do Commercio e na Revista Continente. Esses artigos são reflexões sobre temas do âmbito das artes visuais e fazem parte de uma visão crítica do autor.

Desde o início, como artista, procurei registrar fotograficamente minhas obras sem suspeitar de que essa documentação de imagens seria útil após anos de trabalho. Com essas fotos, consegui realizar, no meu site, uma ampla apresentação da obra. Neste livro, está uma parte menor desse acervo fotográfico: apenas amostras de cada série nas técnicas que desenvolvi, sobretudo na pintura. Cada série obedece a um período de anos, como, por exemplo, a Série Fernando de Noronha, que foi realizada entre 2008 e 2011.  Mas outros quadros intitulados como o mesmo nome do arquipélago foram de 2015 e são obras individuais. Essas reproduções consolidam uma abordagem plástica e meu olhar sobre o mundo e as coisas.